A pandemia veio para nos humanizar?

A pandemia veio para nos humanizar?

Crédito:Envato

Por Cibele Mello

A pandemia de Covid-19 despertou muitos conflitos internos que se tornaram sofrimento

“Todo sofrimento psíquico decorre de um conflito interno, que advém de situações com as quais não conseguimos lidar. Quando temos dificuldade de compreender o que nos acomete, nossas emoções se desorganizam, gerando um efeito colateral desestabilizador que afeta nossa maneira de perceber o mundo. Isso gera sofrimento e sofrer, dói.

 

Quando estamos nesse estado emocional, nos tornamos, momentaneamente, incapazes de enxergar as soluções com clareza. Fragilizados e diante de sentimentos difíceis de elaborar, muitas vezes, paralisamos.

 

Uma das consequências mais comuns associadas aos traumas emocionais, é o desenvolvimento de doenças psicossomáticas. Essas doenças têm raízes emocionais, mas se manifestam no físico, e seus sintomas podem desencadear ou agravar quadros já existentes.

De acordo com o psiquiatra Dr. Cyro Masci, da Clínica Masci, as doenças mais comuns dentro da psicossomática são:

 

– Dores crônicas, como fibromialgia, enxaqueca, artrite e reumatismo.
– Dor no tórax, como sensação de aperto no peito, falta de ar ou sufocamento e fadiga.
– Alergias ou manifestações cutâneas como urticária e a psoríase.

– Problemas gastrointestinal, como como colite, gastrite e úlcera.

– Disfunções sexuais, como redução da libido, impotência, além de sintomas ginecológicos, como tensão pré-menstrual, dificuldade para engravidar ou infertilidade.

– Labirintite, zumbido, sensação de desequilíbrio, entre outras coisas.

 

Porém, nos últimos anos, houve um aumento expressivo de diagnósticos psiquiátricos, para além das doenças psicossomáticas citadas acima. Mundialmente falando, uma nova horda de problemas mentais está atingindo a população, e vem se impondo como um grande desafio para a medicina, especialmente para a psiquiatria. E também para a psicologia. Com certeza você já deve ter ouvido falar delas: depressão, ansiedade e pânico. Pois é! Como se não bastassem todos os problemas cotidianos, agora, mais do que nunca, temos que lidar com o fato de que essas três doenças estão mais próximas do que nunca.

 

Mas por que será que chegamos a esse nível de adoecimento?

Difícil dizer precisamente, pois o diagnóstico de qualquer doença depende, tanto do ponto de vista médico, quanto do ponto psicológico, de uma série de fatores a serem considerados; e no caso dessas três patologias, não é diferente. Além disso, a comorbidade é comum nesse trio; ou seja, depressão, ansiedade e pânico, podem acometer o mesmo individuo ao mesmo tempo.

 

Resultados de uma pandemia

Dentre aquelas pessoas que, durante esse período de isolamento social, apresentaram sintomas ansiosos, humor deprimido ou crises de pânico, temos duas possibilidades de compreensão: ou elas foram afetadas por alguma dessas doenças pela primeira vez ou, para quem já tinha algum desses diagnósticos, houve, muito provavelmente, uma intensificação dos sintomas e das crises. E por que será que isso ocorreu?

Acontece que um evento da magnitude de uma pandemia não passa em brancas nuvens. Na realidade, além da Covid -19, a pandemia nos impôs mudanças comportamentais profundas, ruptura na rotina, o cerceamento da nossa liberdade, desemprego, privação ou limitação financeira, perdas humanas e materiais. E todas essas coisas vividas em meio a um cenário de incertezas e inseguranças, tornaram-se ingredientes de uma grande crise emocional que está nos atingindo, seja de forma mais branda, seja de maneira mais contundente.

Esses sentimentos, tão humanos, se tornaram presença cativa no nosso dia a dia. Tem sido um desafio ser produtivo, criativo, equilibrado nesse tempo tão incomum e repleto de dúvidas. O fato é que ninguém está imune ao que está acontecendo. E diante desse caos coletivo, nos sentimos impotentes, e vulneráveis. Agora me diz se você também não está se sentindo impactado por tudo isso?

O distanciamento social acabou mexendo muito com a saúde mental de todos nós

É normal!

Sim, é normal não se sentir bem o tempo todo. Mas, para algumas pessoas, o tom das consequências emocionais tem sido bem mais intenso; e é nessa intensidade que se estabelece o limite entre a saúde e a doença. O que define um diagnóstico, seja de ansiedade, de depressão, de pânico, ou de qualquer outra doença, não é somente o que se sente, mas é, principalmente, o grau de sofrimento e a persistência que esses sintomas, emocionais e físicos, se manifestam.

Ver nossa vida e nossas relações mudarem tão drasticamente, em tão pouco tempo, abalou nossos hábitos, costumes, mudou profundamente nosso comportamento e transformou aquilo que conhecíamos como “normal”. Nossa referência de mundo já não é mais a mesma… Essa é a conta da Covid-19.

 

Difícil de assimilar…

Mas como compreender, do ponto de vista psicológico, de que formas a realidade da pandemia tem afetado tanto as nossas emoções? Na teoria do médico psicanalista D. W. Winnicott, encontramos um conceito crucial que nos ajuda a entender essa questão. É o conceito de “ambiente suficientemente bom”. Numa explicação bem simplista, o conceito estabelece que o bom desenvolvimento humano depende, essencialmente, dos cuidados maternos e das provisões ambientais que recebemos no início da vida. Ou seja, para sermos saudáveis, precisamos de laços afetivos de qualidade e termos nossas necessidades básicas supridas a contento. E por que isso é tão importante?

Porque a capacidade necessária para lidarmos com os eventos adversos, depende de uma série de competências emocionais que só podem ser adquiridas por meio de experiências vividas, preferencialmente, num contexto afetuoso, confiável e estável. Nesse sentido, podemos considerar que a pandemia pode ser uma experiência traumática para algumas pessoas que, sentindo-se desamparadas em suas necessidades concretas e subjetivas, adoeceram.

Ao concordar com Winnicott, digo que a pandemia nos colocou diante de nós mesmo, diante de nossas vulnerabilidades e trouxe a perspectiva da finitude para mais perto. A pandemia nos humanizou. Sim, mas como não sofrer? Na próxima matéria, explico mais.”

 

Quer saber mais sobre o assunto? Clica neste link:
Psicossomática

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